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: ÍNDICE : Filosofia do Direito : CETICISMO, ÉTICA E CRISTIANISMO

JULIANA RENNA DO ESPÍRITO SANTO SOUZA - ESTUDANTE
julianarenna@yahoo.com.br

CETICISMO, ÉTICA E CRISTIANISMO

CETICISMO, ÉTICA E CRISTIANISMO*

Juliana Renna do Espírito Santo Souza**

Sumário: Introdução; 1. Ceticismo; 2. Dogmatismo; 3. Ética das diferentes correntes. 3.1 Ética da religião; 3.2 Ética do ceticismo; Conclusão; Referências.

PALAVRAS-CHAVE

Ceticismo. Dogmatismo. Cristianismo. Ética.

Introdução

O presente trabalho tem por objetivo expor a contraposição de duas concepções diametralmente opostas, o ceticismo e a religião (mais especificadamente o cristianismo), e como tais concepções constroem uma ética pela qual se embasam e direcionam a conduta humana. Enquanto um não crê na verdade, a outra crê dogmaticamente. É o embate representado de um lado pela tolerância do ceticismo e de outro pela intolerância do pensamento dogmático, indubitável e inquestionável do cristianismo.

Partindo da explicação do pensamento cético em seus métodos de investigação e em seus objetivos, chega-se a uma explanação acerca do pensamento dogmático, bem como a ética em suas diferentes frentes: a do cristianismo e a do ceticismo.

1 Ceticismo

1.1 Origem e Atualidade

O ceticismo é uma corrente filosófica que se desenvolveu especialmente com o pirronismo, denominação que advém do nome do seu fundador, Pírron, o qual é uma importante expressão da cultura do mundo antigo. O pirronismo caracterizava-se por criticar as verdades filosóficas dominantes.

Plínio Junqueira Smith , em seu estudo sobre o ceticismo na atualidade, define que a característica principal do cético é “manter uma atitude crítica diante da pretensão dogmática de ter descoberto a verdade”. Assim, a finalidade do ceticismo é o estabelecimento constante da dúvida em face a determinadas questões que são tidas como verdades.

1.2 A investigação cética

A investigação cética, ainda no pirronismo, como observa João Maurício Adeodato, se desenvolve a partir da seguinte metodologia: primeiramente deve haver a suspensão de juízos definitivos (epoché), que por sua vez leva a admitir a falta de conhecimento seguro sobre a verdadeira natureza dos objetos (acatalepsia), a qual é seguida pelo silêncio prudente diante da natureza das coisas (afasia) .

Há por fim a isostenia, a chamada “igual força”, que é quando se argumenta sobre os diferentes lados contraditórios de uma determinada questão. Nesse sentido, Plínio Junqueira Smith afirma que para os céticos:

“Uma investigação madura costuma mostrar-lhes que a qualquer tese filosófica se pode opor uma outra tese filosófica, de igual força persuasiva e contrária à primeira, de modo que não haveria como aceitar nenhuma das duas . Essa incapacidade de julgar se uma tese filosófica é verdadeira ou falsa é a suspensão do juízo.”

Portanto, a finalidade do ceticismo é demonstrar que não é tão fácil se estabelecer uma verdade, baseando-se apenas em pretensões pessoais ou num método investigativo insuficiente, como fazem a filosofia e a religião. Segundo Plínio Junqueira Smith “os céticos são aqueles que mostram, por meio de uma argumentação que lhes é peculiar, que não há nenhuma garantia de que conhecemos aquilo que alegamos conhecer” .

Como já fora citado anteriormente, o pirronismo era caracterizado por criticar as verdades filosóficas até então dominantes no mundo antigo, instigando a constante atitude dubitativa sobre os postulados das mais variadas correntes filosóficas, fato este que, indiretamente, implicou no desenvolvimento da nova forma cristã de pensamento, o qual se mostrava, como acentua João Maurício Adeodato: “mais embasada na fé, na crença, na vontade, mais descrente da razão demonstrativa” .

Assim, antes de tudo se faz necessário esclarecer que a contribuição do pirronismo para o desenvolvimento da nova forma cristã de pensamento foi absolutamente involuntária, sendo apenas um resultado de sua atitude crítica diante do dogmatismo com que se portava a filosofia então dominante naquele período.

2 Dogmatismo

O dogmatismo pode ser caracterizado de acordo com a corrente de pensamento que o utiliza num determinado momento. E por isso, pode-se fazer a distinção do dogmatismo empregado pela filosofia e o defendido pela religião. Nos tópicos seguintes, essa diferença será mais bem explanada.

Em se tratando de dogmatismo no sentido generalizado, significa falar de coisas indubitáveis, verdades certas sem que haja espaço para uma reflexão crítica, qualquer tipo de revisão ou indagação. E de acordo com essa idéia, Miguel Reale leciona da seguinte forma:

“(...) concebendo o dogmatismo como aquela corrente que se julga em condições de afirmar a possibilidade de conhecer verdades universais quanto ao ser, à existência e à conduta, transcendendo o campo das puras relações fenomenais e sem limites impostos a priori à razão.”

Ainda de acordo com Miguel Reale, o dogmatismo pode apresentar-se de duas formas: total ou parcial. E o que as distingue é justamente o fato de como é estabelecida a afirmação da possibilidade de se encontrar a verdade última, uma vez que a primeira é realizada tanto no plano da especulação quanto no da vida prática ou ética, enquanto que na outra, a afirmação da verdade dependerá das circunstâncias e modos, sendo às vezes influenciada pelo plano da ação e em outros momentos pelo plano especulativo.

3.1 Dogmatismo Religioso

O dogmatismo religioso abrange diversos aspectos sob os quais acabam por se fragmentar devido à existência de múltiplas verdades que variam de acordo com a religião seguida. É evidente que dentro de cada uma delas essas verdades são inquestionáveis, divinas e acatadas pelos fiéis.

3 A ética das diferentes correntes

3.1 Ética da religião

A ética cristã é aquela que busca na divindade o motivo de suas ações e comportamentos, tira do cristianismo a sustentação teológica e filosófica dos seus ensinamentos. Acredita-se que os pressupostos desta ética estão revelados nas sagradas escrituras, partindo de um propósito de que só há um Deus verdadeiro, criador do mundo e, portanto, as regras ditadas por esse Deus devem ser seguidas e incontestadas.

A ética cristã também leva em consideração que os seres humanos sozinhos são incapazes de obedecer e entender a vontade de Deus. Acredita-se que a sociedade, guiada pelo pecado, segue sem ética e moral e então propõe o seguimento de Deus para que se possa conduzir pelo caminho ético. Conseqüentemente, as pessoas que não se deixam ser guiadas pelo Criador são movidas pelo egoísmo e inclinadas a tomar decisões contrárias a Ele.

Assim, por estar baseada nas escrituras e no Criador, a ética cristã deve regular a conduta humana terrena diante de Deus, do próximo e de si mesmo, para que essa conduta passe a agradar a Deus.

José Renato Nalini observa que a civilização ocidental foi largamente influenciada pelos preceitos defendidos pelo cristianismo, pois ela se desenvolveu segundo os valores por ele fornecidos. Por esse motivo se explica o fato de que a moral cristã tenha em muito influenciado a ética da sociedade ocidental.

A partir dessa exposição acerca da ética do cristianismo, faz-se necessário destacar aqueles que seriam os grandes estudiosos e defensores dessa ética cristã: Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino.

Eduardo Bittar, em seu estudo sobre a ética, observa que a ética de Santo Agostinho é semelhante ao cristianismo platônico . Segundo ele, a felicidade provém unicamente de Deus e considera que há um desprezo do mesmo quando o homem comete atos que vão de encontro ao que está escrito nas sagradas escrituras. A ética agostiniana faz uma distinção entre a cidade de Deus e a cidade dos homens, onde esta última representa a reunião daqueles que desprezam a religião, que cometem pecados e, portanto, aqueles que gradativamente estão se distanciando de Deus pelos seus atos desonrosos. A cidade de Deus é aquela dos fiéis a Deus, que é destinada a concretização da paz eterna.

“De fato, na base dessa divisão dicotômica, a Cidade de Deus fazendo face à Cidade dos Homens, podem-se identificar dois amores: um primeiro, ou seja, o amor a si e o desprezo de Deus, que deu origem à cidadã terrestre; um segundo, ou seja, o amor de Deus e o desprezo a si, a cidade celeste.” (BITTAR, Eduardo, Curso de Ética Jurídica, p.262)

Outro pensador é Santo Tomás de Aquino, que, novamente segundo Eduardo Bittar, se assemelha ao cristianismo aristotélico . Para Aquino, a ética consistia em saber diferenciar o bem do mal e conseqüentemente colocar em prática a escolha, direcionando-a para o bem.

A ética tomista defende ainda a Sinderes, que seriam aqueles conhecimentos conquistados a partir da experiência habitual: “é com base nesses conhecimentos extraídos da vivência, da prática, que se podem cunhar os principais conceitos acerca do que é bom e do que é mau, do que é justo e do que é injusto” . Para ele é necessário distinguir os bens aparentes dos caminhos tortuosos para que seja claramente praticado o bem e sabendo evitar o mal. Por fim Santo Tomás acreditava que a sociedade devia ser guiada por uma presidindo o bem social.

3.2 Ética do ceticismo

É necessário se desmistificar a idéia de que o cético, pelo fato de não crer em coisa alguma, não siga uma vida ética. Plínio Junqueira Smith esclarece bem a maneira como o cético conduz sua vida:

“Os céticos pretendem viver a vida cotidiana segundo seus parâmetros habituais, sem se desviarem das práticas comuns. Em certo sentido, o cético é um homem como outro qualquer, sem nenhuma pretensão a um saber superior ou a um caráter mais virtuoso, aceitando tranquilamente os homens e a vida como eles são. (...) O cético é obediente às leis e segue costumes e tradições do lugar em que vive.”

João Maurício Adeodato destaca ainda que um dos objetivos do ceticismo seria o de derrubar a pretensão de uma vida eticamente correta que seja fundamentada naquilo que se diz serem verdades, livres de ideologias ou preferências pessoais, válidas em si mesmas . Assim, o cético, ao contrário do que comumente se imagina, se conforma com a ética do meio em que vive e segue suas regras, mesmo que não acredite ou se fundamente em tais verdades para viver eticamente.

Nesse sentido, vale destacar o pensamento de Eduardo Bittar quando este afirma que a ética nada tem a ver com preceitos religiosos, dogmas ou crenças:

“Ética não tem nada que ver com religião. Há um vício de se pensar que toda a origem da moralidade social decorre de grandes preceitos ou dogmas religiosos. Há também um profundo sentimento, arraigado, de culto aos antepassados religiosos ou de provocação com os valores de que se deseja superar, quando o estreito limiar entre ser ateu e ter postura ética se confrontam. Há que, diretamente, esclarecer o que se quer dizer: ser ético independe de crença, credo ou de particularismo de cultos determinados.”

Portanto, apesar do pensamento cristão em muito ter influenciado na formação de uma moral embasada em seus preceitos, é importante ressaltar que viver eticamente não se resume viver segundo determinadas crenças e cultos.

Apesar de o cético manter essa postura em que nada crê, em que tudo é relativo, em que a verdade não existe, isto não o impede de viver segundo os padrões éticos do ambiente em que vive. Na realidade, o cético busca apenas a felicidade ao agir dessa forma. Citando novamente João Maurício Adeodato, ele expõe claramente como que o cético, em sua acepção pirrônica, busca a felicidade através de sua constante atitude dubitativa:

“É um erro pensar no ceticismo pirrônico como uma negação paralisante de toda e qualquer postura diante da vida. Ao contrário, ele pressupõe uma concepção eudemonista do mundo – de eudaimonia, a busca da felicidade no cotidiano e na condução da vida [...]. Para os céticos, atinge-se essa felicidade tendo-se uma vida tranqüila e pacífica, sem grandes crenças e fanatismos no que quer que seja. Ataraxia é essa tranqüilidade que não se perturba”.

Conclusão

O dogmatismo conta com uma adesão esmagadoramente maior do que o ceticismo pelo fato de ser bem mais sólido, mais seguro para aqueles que precisam de algo com que se firmarem, algo que dê sentido para suas inquietações e questionamentos, segurança esta que o ceticismo não fornece, uma vez que parte de uma visão crítica diante da pretensão dogmática de ter descoberto determinadas verdades, e vai além, pois reputa que a verdade simplesmente não existe, pois sempre existirá um argumento de igual força que irá derrubá-la.

Diante da atitude do pirronismo de criticar constantemente as verdades filosóficas tão dominantes nas civilizações antigas, o dogmatismo cristão se desenvolveu e contou com larga adesão, e, dessa forma, influenciou fortemente na forma de pensamento de toda uma civilização, em sua conduta, embasada em crenças, em verdades absolutas e inquestionáveis, sendo, por isso, caracterizado como uma atitude intolerante. Essa grande adesão foi responsável pelo desenvolvimento de uma ética muito ligada à forma cristã de pensamento, fato este que comumente leva os céticos a serem considerados como pessoas que vivem de forma anti-ética, quando na realidade o que acontece é que este vive ao máximo dentro dos padrões éticos do ambiente social em que vive, estando absolutamente a vontade em seu cotidiano. O que os difere do demais, é que a forma com que busca a felicidade resume-se a uma vida tranqüila e pacífica, completamente distante de crenças ou fanatismos, aceitando de forma bem mais simples as implicações da realidade, sem, contudo, deixar de questioná-las a todo instante.

REFERÊNCIAS

ADEODATO, João Maurício.

BITTAR, Eduardo C. B. Curso de Ética Jurídica. São Paulo: Saraiva, 2005.

NALINI, José Renato. Ética Geral e Profissional.

REALE, Miguel. Filosofia do Direito. São Paulo: Saraiva, 1996.

SMITH, Junqueira Plínio. Ceticismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

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