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: ÍNDICE : Outra : A ética no mundo moderno

Antonio Toshio Sato - Estudante
antonio.sato@yahoo.com.br

A ética no mundo moderno

Ética é uma palavra de origem grega, com duas origens possíveis. A primeira é a palavra grega éthos, com e curto, que pode ser traduzida por costume, a segunda também se escreve éthos, porém com e longo, que significa propriedade do caráter. A primeira é a que serviu de base para a tradução latina “moral”, enquanto que a segunda é a que, de alguma forma, orienta a utilização atual que damos a palavra Ética. Ética é a investigação geral sobre aquilo que é bom.(1) A Ética tem por objetivo facilitar a realização das pessoas. Que o ser humano chegue a realizar-se a si mesmo como tal, isto é, como pessoa.(2)

A Ética é o estudo geral do que é bom ou mau, correto ou incorreto, justo ou injusto, adequado ou inadequado. Um dos objetivos da Ética é a busca de justificativas para as regras propostas pela Moral. Ela é diferente da Moral, pois não estabelece regras. Esta reflexão sobre a ação humana é que caracteriza a Ética.(3)

Como Doutrina Filosófica, a Ética é essencialmente especulativa e, a não ser quanto ao seu método analítico, jamais será normativa, característica esta, exclusiva do seu objeto de estudo, a Moral. Portanto, a Ética mostra o que era moralmente aceito na Grécia Antiga possibilitando uma comparação com o que é moralmente aceito hoje na Europa, por exemplo, indicando através da comparação, mudanças no comportamento humano e nas regras sociais e suas conseqüências, podendo daí, detectar problemas e/ou indicar caminhos. Além de tudo ser Ético é fazer algo que te beneficie e, no mínimo, não prejudique o "outro".

A ética em sua essência pode ser interpretada como um termo genérico que designa aquilo que é freqüentemente descrito como a "ciência da moralidade", seu significado derivado do grego, quer dizer 'Morada da Alma', isto é, suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto.

No que concerne a Filosofia, o comportamento ético é aquele que é considerado bom, e, sobre a bondade, os antigos diziam que: o que é bom para a leoa, não pode ser bom à gazela. E, o que é bom à gazela, fatalmente não será bom à leoa. Este é um dilema ético típico.

Assim, de investigação filosófica, e devidas subjetividades típicas em si, ao lado da metafísica e da lógica, não pode ser descrita de forma simplista. Desta forma, o objetivo de uma teoria da ética é determinar o que é bom, tanto para o indivíduo como para a sociedade como um todo. Os filósofos antigos adotaram diversas posições na definição do que é bom, sobre como lidar com as prioridades em conflito dos indivíduos versus o todo, sobre a universalidade dos princípios éticos versus a "ética de situação". Nesta o que está certo depende das circunstâncias e não de uma qualquer lei geral. E sobre se a bondade é determinada pelos resultados da ação ou pelos meios pelos quais os resultados são alcançados.

A ética tem sido aplicada na economia, política e ciência política, conduzindo a muitos distintos e não-relacionados campos de ética aplicada.

Da mesma forma tem sido aplicada à estrutura da família, à sexualidade, e como a sociedade vê o papel dos indivíduos, conduzindo a campos da ética muito distintos e não-relacionados, como o feminismo e a guerra, por exemplo.

O panorama descritivo da ética é moderna e, de muitas maneiras, mais empírica sob a filosofia Grega clássica, especialmente Aristóteles.

Inicialmente, é necessário definir uma sentença ética, também conhecido como uma afirmativa normativa. Trata-se de um juízo positivo ou negativo (em termos morais) de alguma coisa.

Podemos entender que os elementos essenciais da vida ética no mundo antigo foram nitidamente contrastantes com as características do ambiente ético no mundo moderno. Assim é que, para os antigos, a religião tudo decidia, na vida e na morte, não havendo nenhuma distinção prática entre deveres religiosos, morais e jurídicos. Intimamente ligada a essa característica era a autoridade máxima da tradição, como critério definidor dos comportamentos humanos: os antigos desconfiavam muito das novidades; ao passo que o homem moderno virou as costas ao passado e passou a exaltar o progresso.

Uma outra distinção da vida ética antiga era a absorção do indivíduo no grupo social, isto é, na família, na tribo, no clã, na cidade. Os antigos nunca imaginaram que pudessem existir direitos individuais.

Tal quadro ético, que perdurou por milênios, só começou a ser rompido a partir do chamado “período axial” (entre os séculos VIII e II a.C.), em razão do surgimento da fé monoteísta e do saber filosófico, fundado na razão. As religiões locais ou nacionais começaram a desaparecer, cedendo lugar à religião universal de um Deus único e verdadeiro. O monoteísmo judaico, que inaugurou essa nova fase, apresentou uma característica por assim dizer revolucionária, a saber, a íntima ligação entre o culto e a ética: mais da metade dos mandamentos do Decálogo são morais e não culturais. A seu turno, o saber filosófico deu início a um trabalho de crítica racional de todos os preceitos éticos antigos: religiosos, morais ou jurídicos.

Para Kant a ética é formal e autônoma. Por ser puramente formal, tem de postular um dever para todos os seres humanos, independentemente da sua situação social e seja qual for o seu conteúdo concreto. Por ser autônoma (e opor-se assim às morais heterônomas nas quais a lei que rege a consciência vem de fora), aparece como a culminação da tendência antropocêntrica iniciada no Renascimento, em oposição à ética medieval. Finalmente, por conceber o comportamento moral como pertencente a um sujeito autônomo e livre, ativo e criador, Kant é o ponto de partida de uma filosofia e de uma ética na qual o ser humano se define antes de tudo como ser ativo, produtor ou criador.

Já em relação ao mundo moderno temos suas raízes fundadas na razão de que é um tempo de mudança, de crise, de morrer ao tradicional, de abandonar o velho e abraçar o novo, de quebrar paradigmas e estabelecer novas formas de vida e valores. É tempo de ser diferente, de inventar diferenças e conviver pacificamente com o diferente.

Não é fácil estabelecer uma definição desse processo. Deve-se, no entanto, ter presente que o desenvolvimento econômico e tecnológico ocasionou uma transformação social e a formação de uma nova mentalidade.

É um processo de “crise” social que levou à configuração de um novo homem, uma nova sociedade, uma nova ética e também de uma nova religião. Essa crise colocou em xeque o modelo e os valores existentes e fez nascer o desejo de superação de tudo. Este “novo” foi assumido e definido como “bom”.

A ideologia do homem moderno é o pragmatismo. Sua norma de conduta é a vigência social, as vantagens que leva, o que está na moda. Sua ética se fundamenta na estatística, substituta da consciência. Sua moral, repleta de neutralidade, carente de compromisso e subjetividade, fica relegada à intimidade, sem se atrever a sair em público. Tudo é suave, ligeiro, sem riscos; somente faz algo com garantia. Em sua vida, não há rebeliões, pois sua moral se converteu numa ética de regras de urbanidade ou mera atitude estética.

É frio, não acredita em quase nada, suas opiniões mudam rapidamente e deixou para trás os valores transcendentes. Busca o prazer e o bem-estar a qualquer custo, além do dinheiro. Para ele tudo é descartável, inclusive as pessoas. Passa por cima de tudo e de todos para buscar a fama, o sucesso, o triunfo. Vive unicamente para si, para seu prazer, sem restrições.

O homem moderno, conforme Rojas (4), não é feliz. Ele tem uma certa dose de bem-estar, tem prazeres, mas vive esvaziado da autêntica alegria.

A tendência é pensar que o homem pós-moderno não tem uma moral, ou seja amoral, como se não tivesse valores ou até mesmo uma capacidade moral. No entanto, não é bem essa a realidade. A pós-modernidade somente alterou os valores morais. Do bem passamos para a idéia do bem-estar e esse valor é fundamental na cultura atual.

É necessário ter presente que já não se vive mais o mundo marcado por fortes estruturas sociais, por instituições fortes, por mitos e tabus, pela figura do Deus castigador, de leis eternas e imutáveis, de um controle social excessivo e atrofiador, mas que o homem pós-moderno se tornou o centro, o referencial único. Ou, como afirma David Harley: “A experiência do tempo e do espaço se transformou, a confiança na associação entre juízos científicos e morais ruiu, a estética triunfou sobre a ética como foco primário de preocupação intelectual e social, as imagens dominaram as narrativas, a efemeridade e a fragmentação assumiram precedência sobre verdades eternas e sobre a política unificada, e as explicações deixaram o âmbito dos fundamentos materiais e político-econômicos e passaram para a consideração de práticas políticas e culturais autônomas”(5)

A autonomia pessoal e a democracia são as únicas formas de ordenamento da vida e das ações. Aliás, tendo-se libertado de toda forma de controle e domínio, esse homem já não aceita qualquer tipo de heteronomia. Isto explica o porquê de sua revolta contra qualquer tipo de lei, especialmente religiosa, pois são reconhecidas como responsáveis pelo controle excessivo ocorrido no passado. Lipovetsky afirma que passou o tempo do “tu deves” e do tempo da moral “rigorista”.(6) “A pós-modernidade liberou as subjetividades do enquadramento forçado em instituições totalitárias, com suas éticas rígidas, como são, geralmente, as religiões, as igrejas, os partidos ideologicamente totalitários e as filosofias globalizadoras”.(7)

Mesmo percebendo a verdade de certas proposições éticas históricas e sociais, o homem pós-moderno rejeita-as, porque não provém de sua própria formulação ou experiência. Assim como um adolescente, as verdades ensinadas somente serão assumidas pessoalmente na proporção da experiência e da verdade por elas reveladas. Não se aceitam mais normas e regras morais, senão aquelas que forem descobertas como importantes e necessárias, a partir do protagonismo humano. A heteronomia (moral proposta por outro além de mim mesmo), nesse caso, cede seu espaço para a autonomia moral (cada um estabelece a sua moral). A verdade de um único sistema moral, um único conjunto de verdades dá seu lugar a um conjunto variado de verdades e a sistemas abertos e aleatórios, o que fatalmente leva ao desajuste geral e uma verdadeira crise. Por toda parte ecoam ações e estilos de vida desfigurados daquela verdade outrora absoluta e se percebe uma atrofia de consciências e o aparecimento de novos estilos e comportamentos. Estes são tolerados; afinal, a verdade é pessoal e resultado da experiência e dos gostos individuais.

Ainda segundo Lipovetsky, o “self-interest” é a única lei assumida e o dever passou a ser escrito em letras minúsculas. O “é necessário” cedeu seu passo à felicidade, ao estímulo dos sentidos e o proibido somente vale quando está no corpo da lei escrita. Ao mesmo tempo ele chama a atenção: não nos enganemos: os gritos pelo retorno da ética não passam de um grito, mas não significam uma renúncia a si próprio ou o desejo de obrigações em favor dos outros. Esta é a sociedade do “pós-dever”, na qual os direitos subjetivos dominam os mandamentos imperativos. Ele afirma: “Queremos o respeito da ética sem mutilação de nós mesmos e sem obrigações difíceis: o espírito da responsabilidade, não o dever incondicional. Por trás das liturgias do dever demiúrgico, chegamos ao minimalismo ético”.(8) Esse desajuste ético e conseqüente re-ajuste dos valores é necessário e é conseqüência da nova antropologia. Os velhos mitos e tabus não têm mais efeito sobre a nova mentalidade. São estórias de crianças assustadas em noites de tempestade. O protagonismo humano tende a estabelecer um novo ordenamento moral. Observe-se, no entanto, que também o inverso pode se fazer sentir, especialmente naquelas culturas e setores nos quais a nova mentalidade não encontra aceitação: trata-se da tendência a um fechamento completo e aberta oposição aos novos valores, chegando, às vezes, a um retorno aos velhos e tradicionais estilos de vida.

Afinal, o mundo pós-moderno se demonstra extremamente frágil, quebradiço, sem consistência, sem encanto e apresenta “rachaduras no espelho”.(9) Ele instaura o reinado da fragilidade, da superficialidade, da trivialidade, ou, no dizer de Zygmunt Bauman, da “liquidez”. “Resta a ver se o tempo da pós-modernidade passará para a história como crepúsculo ou como renascimento da moralidade”.(10) Demonstra ser carente de interesse, repleto de frivolidade, alimentado por meios de comunicação massificantes e alienantes, da informação sem formação, conseqüência de uma sociedade que cria um coquetel de experiências e sentimentos, consumo frenético de coisas e matérias, de verdades passageiras e sem fundamento, carente de futuro e de certezas, sociedade louca por desejos, adrenalina pura, prazer, dor e morte.

Uma nova cultura, composta de uma nova linguagem, de uma nova simbologia, de arte, de novos paradigmas, de um novo estilo de vida, de uma nova axiologia marcada pelo controle da vida pessoal e coletivo, implantará um novo “ethos” pós-moderno, compreendendo dessa forma o nascimento de novos valores e atitudes éticas e morais.

REFERÊNCIAS

(1) MOORE, GE. Princípios Éticos. São Paulo: Abril Cultural, 1975.

(2) CLOTET, J. Una introducción al tema de la ético. Psico, 1986.

(3) GLOCK, RS, Goldim JR. Ética profissional é compromisso social. Mundo Jovem PUCRS, Porto Alegre, 2003.

(4) ROJAS, Enrique. El hombre light: uma vida sin valores. Madrid: Temas de

Hoy, 1996.

(5) HARVEY, David. Condição Pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 1992. p. 293.

(6) LIPOVETSKY, Gilles. El crepúsculo del deber. La ética indolora de los nuevo tiempos democráticos. Barcelona: Espanha: Editorial Anagrama, 1994, p. 46.

(7) BOFF, Leonardo. A voz do arco-íris. Brasília: Letraviva, 2000. p. 31.

(8) LIPOVETSKY, Gilles, op. cit., p. 49.

(9) HARVEY, David, op. cit., p. 323.

(10) BAUMAN, Zygmunt. Ética pós-moderna. São Paulo: Paulus, 1997, p. 8.

Currículo do articulista:

Acadêmico do curso de Direito do Centro Universitário Curitiba

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